Sei
01 Aug 2013 | Sei

Fã Clube Nando Reis

‘Minha História’ por Nando Reis

‘Minha História’ por Nando Reis

Quem acompanha as entrevistas de Nando Reis já o viu falando por diversas vezes que se escrevesse um livro contando suas memórias, autorizaria a publicação após 50 anos de sua morte. Isso, segundo ele, seria para que seus familiares não tenham que ficar respondendo perguntas sobre sua vida pessoal.

Mesmo assim, ano passado, o cantor foi convidado pelo ‘Museu da Pessoa’ (CONHEÇA AQUI) a contar sua vida através de depoimentos em vídeo e escrito, como uma pequena autobiografia… Este relato foi exposto no site do ‘Museu da Pessoa’ e vocês o lerão a seguir na íntegra!

Ele fala de sua infância em São Paulo e sobre os problemas de saúde de dois de seus irmãos. Recorda o clima festivo em sua casa de infância e o envolvimento com a música desde muito novo. Recorda o período em que estudou no Colégio Equipe e sobre a perda da mãe. Relembra o início musical com o grupo Titãs, a trajetória de sua carreira solo e o trabalho como produtor musical. Com tristeza, lembra da morte de Cássia Eller, uma grande amiga e companheira. Por fim, fala sobre os namoros, os casamentos e os filhos.

Leitura essêncial para os grandes fãs de Nando Reis!!!

CONFIRA ABAIXO:

Meu nome é José Fernando Gomes dos Reis, nasci em 12 de janeiro de 1963, aqui em São Paulo. Minha mãe é de São Paulo e meu pai nasceu em Jaú, no interior de São Paulo. Papai veio cedo pra cá. Meu avô e minha avó paternos, o vô Zezé e vovó Mariquinha, nasceram em Jaú e viveram lá bastante. Meu avô era fazendeiro e agrônomo. O vovô tinha fazendas, uma grande fazenda chamada Tucumã. Meu avô vendeu a parte dele para os irmãos e comprou essa terra em Jaú, que chamou de Fazenda Frei Galvão. Eu sou descendente do nosso Santo Frei Galvão. Vovô Zezinho e Vovó Jú tiveram três filhos: Tio Ataliba, Tia Leninha, e mamãe. Minha mãe se formou em Fonoaudiologia na PUC, me ensinou violão. Mas mamãe dava essas aulas, eu me lembro vagamente de alunos, mas nunca foi a profissão dela, nunca se apresentou. Ela tocava bem e tinha mais do que isso, ela tocava e cantava, era lindo. A minha relação com a música se passa, evidentemente, por isso.

Eu sou o quarto de cinco filhos. José Carlos Gomes dos Reis; Maria Cecília Leonel Gomes dos Reis; depois o José Luís Gomes dos Reis. É uma escadinha. Depois, cinco anos de intervalo, nasço eu, depois de três anos minha irmã Maria Luiza Leonel Gomes dos Reis. Eu nasci no Jardim Paulistano e morei lá até os 11 anos, que depois o meu pai construiu uma casa no Butantã, e daí fomos para lá, e de lá eu saí só quando me casei. A casa na Rua Santa Cristina, 217. E a minha vida foi toda no bairro, eu estudei no Bola de Neve, sou da primeira turma do Bola de Neve, eu fiquei até 1972. Eu nasci são-paulino, a família toda é são-paulina, meu avô é são-paulino, que ajudou a construir o Pacaembu, ganhou cadeira cativa, meu pai é são-paulino, todo mundo é são-paulino, menos a Sophia. E eu ia ao estádio, papai me levou ao estádio, tinha camisa, meu ídolo era o Pablo Forlán. Papai era fã de Jorge Ben, mamãe estudava bossa nova com Paulinho Nogueira, os cadernos de música dela têm músicas incríveis, que eu mesmo nunca ouvi. E a gente via muito show aqui no Tuca. Era hábito da minha família comprar discos e ir à shows. Eu gostava de tudo isso, sempre gostei, mas Gil e Caetano muito, desde pequeno. O disco do Gil de Londres, e do Caetano de Londres, o disco Branco do Caetano já é um disco que eu me lembro. O que tem o Alegria, não o do Tropicália, o disco do Caetano que tem aquele desenho, já é um disco marcante na minha vida. Gal, Gil e Caetano, pra mim eram a coisa mais impressionante. Eu saí do Bola de Neve e eu fui para o Vera Cruz, em 1973. Eu fiz muitos amigos no Vera Cruz, a minha vontade era ficar lá e o Vera Cruz era um colégio maravilhoso, mas fui para o Nossa Senhora do Morumbi, que também foi maravilhoso, que era lá no Morumbi, na Giovanni Gronchi. Depois eu quis ir para o Equipe, fui para o Equipe e encontrei Vânia, minha mulher e tudo mudou. É a minha mulher hoje. Eu a conheci no primeiro dia de aula, em 1978, ficamos amigos, eu apaixonado por ela, louco por ela. Eu tocava violão. A minha primeira banda eu formei em 79, eu estava no Equipe, porque tinha um festival de música no Colégio Santa Cruz, II Festival de Secundarista. Tinha 16 anos.

Entrei na Ufscar, Universidade Federal de São Carlos, em Matemática, em julho de 1982 e eu fui para lá. Em vez de ir pra uma república, eu aluguei uma casa junto com um rapaz, mas não consegui me fixar. Era bacana a vida, mas eu era muito mau aluno em matemática, eu não conseguia entender, eu não tinha disciplina, nem raciocínio para aquilo, tomei pau em todas as matérias de matemática também. Só passei em português, inglês e em educação física. Abandonei a faculdade. Nesse tempo os Titãs já estavam ensaiando e eu perdia muitos ensaios durante a semana. Os Titãs começaram num projeto que chamada “A Idade da Pedra Jovem”, que era um projeto que a gente fez para Biblioteca Mário de Andrade, que tinha uma grande viagem assim, e no meio tinha um número que chamava “Titãs Iê-iê-iê”, onde as pessoas que iam tocar um instrumento e eu era o baterista do Titãs. A gente se conheceu todo mundo no Equipe. O Arnaldo e o Paulo e o Brito são mais velhos do que eu, estudaram no Equipe, mas eu não fui contemporâneo deles. Branco e Marcelo sim, eram um ano mais velho do que eu, mais velhos e eram muito amigos meus, a gente tinha uma turma chamada Papagaio. A gente tinha essa revista “Papagaio”, que era editada pela gráfica do Equipe, era uma revista super bacana, onde muitos talentos que hoje são artistas renomados das Artes Plásticas, a Leda Catunda, Rodrigo Andrade, Carlito Carvalhosa, Paulo Monteiro, Antônio Malta, Fábio Miguez era todo mundo da nossa turma e a gente tinha um time de futebol.

Os Titãs foram para frente, começaram os ensaios e mudaram, saíram da casa do Aguilar, começaram a ensaiar com regularidade e eu perdia esses ensaios. Eu sabia que eu não ia poder ser o baterista, porque eu não tinha, de fato, talento, tomei aulas muito iniciais e rudimentares de bateria, mas para gente virar uma banda precisava de um baterista. Então, a gente chamou o André Jung, conhecido como André Pirâmide, na época, por causa do cabelo dele e eles começaram a ensaiar. A primeira apresentação foi em 15 e 16 de outubro de 82, no Sesc Pompeia. A gente montou um show, basicamente eram de composições nossas, algumas versões, e a gente tocava alguns jingles. Fomos contratados todos pela Warner, por causa do Pena Schmidt, que era o olheiro da Warner, dessa cena de São Paulo e acho que essas duas, três bandas representam muito bem: Ultraje a Rigor, Titãs do Iê-iê-iê e Ira. Raul Gil foi o primeiro programa que a gente fez, mas não foi o primeiro que foi ao ar, o primeiro que foi ao ar acho que foi Hebe Camargo, mas a gente fazia tudo, Barros de Alencar, Raul Gil, Bolinha, todos, a gente adorava! O primeiro show que a gente fez no Rio de Janeiro foi no Circo Voador.

Meu plano era casar e eu quase me ferrei, porque os Titãs era essa farra toda, mas não dava uma grana exatamente, deu depois mais tarde. Em 83, o Paulo Miklos tinha uma banda, vários amigos que fundou, que até participava, a turma que também era do Equipe, tal, fizeram um negócio que era para ser uma noite que chamava Noite do Caribe, o Sesc Pompeia promovia noites temáticas e tinha uma tal de Noite do Caribe e pintou para fazer e montaram uma banda para tocar lá que era o “Sossega Leão”, uma banda de salsa, liderado pelo Skowa. E para eu casar, precisava de dinheiro e não dava, eu estava em duas bandas, embora uma fosse autoral minha de fundação e na outra eu fosse um crooner e percussionista, eu cheguei a ficar tão louco, com a obsessão de casar, que eu cheguei a sair do Titãs durante uma semana para ficar no “Sossega Leão”, para poder ter dinheiro para casar. Eu sai, eles ficaram chocados, porque justamente quando eu sai a música de trabalho seria o “Marvin” que eu era o cantor. Voltei atrás e eles me reaceitaram. Casei em 14 de fevereiro de 85 com a Vânia, que hoje é ainda e de novo, a minha mulher, porque dela eu me separei, voltei. Minha certidão de casamento parecia um B.O. assim: três folhas: casado, separado, anulação, casado, separação, casado de novo… Eu casei com ela três vezes. Depois gente se mudou para o Itaim. A Vânia engravidou logo em abril, e uma loucura, porque não estava nos nossos planos, a gente não tinha grana para ter filho, ela estava usando DIU e engravidou. Quando o Theo nasceu, eu tinha feito 23. Eu fiz 23 dia 12 e ele nasceu dia 16. E aconteceu um problema, porque em 85, o Arnaldo e o Bellotto foram presos, o Arnaldo foi preso por tráfico de heroína. Eu não usava não, mas o pessoal estava usando e isso foi um problema, a prisão do Arnaldo teve um grande impacto, porque a carreira do Titãs estava indo bem, a gente já tinha gravado nosso segundo disco. Então, a gente tinha mercado para fazer os nossos shows até que a prisão do Arnaldo arruinou, fecharam as portas, imagine, quem ia dar trabalho, contratar uma banda, cujo vocalista estava em cana por tráfico? Ninguém! Todos os programas cancelaram, o único que não cancelou foi Perdidos na Noite, do Fausto Silva.

Mas tudo mudou com o “Cabeça Dinossauro”, não imediatamente, mas num curto espaço de tempo, o disco bateu. A gente fez esse disco no Rio de Janeiro, a gente começou a ter um público mais definido, porque o nosso show era mais perto, tinha mais unidade. Foi no show seguinte, que eu passei a tocar baixo, foi o “Jesus”, esse show eu ainda dividia com o Paulo, contrabaixo. E voltamos, passou o episódio do Arnaldo, acho que deixou de ter repercussão, impacto, afetar a nossa carreira e entramos em ano de ascensão meteórica, ou pelo menos, muito forte. Tive a Sophia em 88, mudei da casa nove da vila para a casa 12. A primeira vez que eu me separei, 91. A gente estava muito bem consolidado, viajando e eu estava muito entusiasmado em voltar compor e eu comecei a levar o violão para viajar, um violão que é o violão de nylon da minha mãe, nesse período eu comecei a trabalhar, levar o violão e estava muito empenhado em compor.

Em 91 a gente gravou “Tudo ao mesmo tempo agora” e quando a gente estava fazendo “Titanomaquia”, que era disco muito pesado, teve uma divergência que hoje eu entendo como muito mais. A saída do Arnaldo, evidentemente, quebrou aquela ideia de eternidade que a gente tinha juvenil e foi um golpe, acho que em todos os sentidos, pela perda da contribuição dele, que por mais que ele continuasse, é claro, naturalmente no período subsequente, acho que ele parou, foi fazer as coisas dele, afinal de contas, e a gente tinha uma certa reação. O “Titanomaquia” é o disco que eu tive a maior dificuldade em fazer. Fui percebendo que o meu espaço estava diminuto dentro dos Titãs e eu fui procurar fora. Encontrei a Marisa (Monte) e com o encontro com a Marisa, abriu-se também uma possibilidade imensa, porque a Marisa era uma cantora, muito talentosa. Resolvi fazer uma canção que é quase que um oferecimento, tanto que a música tem “Para você o que você gosta diariamente”. A Marisa gravou essa música, foi a primeira música minha gravada fora dos Titãs e a gente fez algumas parcerias que entraram no disco e nesse momento, eu me separei da Vânia, o que foi um grande golpe, foi um impacto, separação é sempre ruim. Eu continuei no Titãs, eu não sai do Titãs. O que aconteceu? Minha mãe tinha morrido, o Arnaldo tinha saído dos Titãs, isso no período de dois, três anos. Eu só fui a sair dos Titãs, de fato, em 2001, dez anos depois.

A Marisa tinha me convidado para tocar. Os Titãs tiraram uma pausa, finalmente, depois de muito tempo, a gente viu que a gente estava exaurido e resolveu parar e nessa parada, eu estava namorando a Marisa. Ela ia fazer uma turnê na Europa e no Japão e me convidou para fazer parte da banda dela e eu ensaiei, era uma banda bacana, eu tocava violão nessa banda. Só que as coisas não estavam tão boas, eu estava me reaproximando da Vânia e a Vânia engravidou. E eu não tinha como ir nessa turnê e fiquei num dilema, porque eu acharia muito estranho ir na turnê e ficar quase três meses fora e a Vânia grávida aqui e não contar para Marisa e ao mesmo tempo, eu achava uma crueldade contar e ela além de separar de mim. E eu cometi um erro na minha vida que foi não ter contado para ela diretamente. Fiquei, me reaproximei da Vânia, a Vânia engravidou do Sebastião e eu fiquei no Brasil, duro. Titãs estavam de férias, eu não tinha dinheiro, fui pedir emprego na MTV, eu já tinha conhecido, a Anna Butler, que era diretora artística me conseguiu um trampo, que eu fui trabalhar como produtor, inventou um lugar para eu trabalhar, num trabalho muito interessante que chamava “Gastão redescobre o Brasil”. Eu gravei o meu disco em janeiro, meu disco saiu em março. Quando eu fui lançar o meu disco, a banda queria voltar a ensaiar e eu falei: “Não, eu não posso. Eu acabei de lançar o disco, preciso divulgar o disco”. Teve a famosa frase que gerou, me custou caro o Charles falou: “Mas a banda está pronta”, eu falei: “Se eu não estou pronto, a banda não está pronta”, o que foi interpretado pelo Charles como uma insolência da minha parte. Eu falei: “Não, a banda é todo mundo. Eu não quis me colocar acima da banda, eu quis dizer que a banda” e pedi, só que infeliz mais ficou essas impressões. Começou o meu calvário, o meu segundo calvário que foi além do que a minha música fez sucesso, eu vinha de um sucesso nacional, que era “Onde Você Mora”, foi um estouro! E depois, a Warner lançou “Me diga” que fez um sucesso expressivo. Eu entrei para uma segunda fase, voltei a me casar com a Vânia.

O “Volume Dois”, do Titãs, tem uma certa ironia ali e uma certa malandragem nossa dar uma continuidade, mas o “Volume Dois” é um disco híbrido, entre regravações e inéditas. O que aconteceu? Na votação, ganhou “Os cegos do Castelo” que seria a única música inédita, mas o Britto e o Branco ficaram revoltados, porque já havia um ciúme muito grande em cima de mim e fizeram uma manobra e derrubaram, convenceram o Liminha que deveria ter quatro músicas inéditas, o que não foi ruim.

Eu e a Cássia (Eller), a gente tinha uma timidez. Embora eu fosse dos Titãs, tinha uma condição de igualdade de tamanho, de geração e mais do que isso, uma afinidade musical e uma graça, a Cássia era muito engraçada, era uma pessoa engraçada, falante, inteligente, culta até e tocava muito bem violão. Então assim, era uma delícia ficar com ela. O disco é o resultado disso, eu acho o disco fantástico! O disco teve uma grande importância. O “Com Você, Meu Mundo Ficaria Completo” deu a Cássia um grande hit que foi o “Segundo Sol”, acho que deu a ela outros hits, não sei se “Palavras” foi um hit de rádio.

A Zoé nasceu em 1999, 27 de setembro, daqui a três dias faz 14 anos e os Titãs tinham emendado “Acústico” com “Volume Dois” e agora, “As Dez mais” e foram turnês muito bem sucedidas o “Acústico” principalmente, o “Volume Dois” se manteve e “As Dez Mais” entrou numa certa curva descendente pela hiper exposição, pela própria saturação consequente pela exposição. Os Titãs foram com essa turnê até fevereiro de 2000. Eu parei imediatamente, a gente terminou o show no Parque Villa Lobos, show ao ar livre, parei esse foi o ultimo show que nós fizemos dessa turnê e eu embarquei imediatamente, no mesmo dia para Seattle, onde eu fui gravar o meu segundo disco “Para Quando o Arco-Íris Encontrar o Pote de Ouro.” A minha base musical, ela tem a música brasileira como forma fundamental, não o rock brasileiro, embora eu fizesse parte de uma geração que estava associado com o rock brasileiro, o álbum chamado da segunda geração, geração dos anos 80, são fortes e nítidas, principalmente, na forma de eu tocar violão, do Gil e do Jorge Ben, sabe, a maneira rítmica, como se mistura, a forma como eu toco a mão direita com a divisão da melodia e as próprias, enfim, há uma base, no entanto, eu sou muito fã de música norte americana e não apenas de rock, eu acho que principalmente o que eu gosto tem uma origem, daquilo que é chamado soul music. Eu já via muito o Stevie Wonder, o Curtis Mayfield, os dois principalmente, o Sly and the Family Stone não tanto e mais o Marvin Gaye, que o “Marvin” inclusive é uma homenagem ao Marvin Gaye e mais tarde, o All Green. Tudo isso para dizer que na hora que eu vi o Alex, eu falei: “Esse tecladista, eu quero ele para o meu show”, porque certas coisas são culturais, é mais ou menos como a gente tocando bossa nova. Então, trazer uma pessoa que tocasse isso faria uma mescla que eu falei: “É essa a saída”. Quando fiz a pré-produção desse disco, botei o Alex, convidei o Jack Endino para produzir o meu próximo disco, em 1999, estando lá com os Titãs, ele aceitou. Marcamos de fazer essa gravação em janeiro, isso através da Warner, que concebeu, estava dentro do meu orçamento. Fui eu para os Estados Unidos no começo de fevereiro de 2000, levando dois músicos daqui, o Fernando Nunes e o Walter Villaça, o Fernando já tocava comigo, o Waltinho conheci na banda da Cássia, para encontrar o Alex, que não conhecia o Jack, fui eu que apresentei e o Jack ia me apresentar um baterista, que originalmente, ia ser um cara do Pearl Jam, que eu não sei o nome, porque o Jack é amigo de todos eles, mas eles estavam ocupados, e me apresentou o Barrett Martin. Então, eu gravei o disco com uma banda metade americana e metade brasileira e isso deu a cara que até hoje, é a cara dos Infernais. Eu lancei esse disco, eu tinha um período de fevereiro a quase um ano, a gente ia se reencontrar em fevereiro do ano que vem, eu acho, acho não, foi isso. Aconteceu que eu trouxe a banda, montei e eu tinha uma agenda com um camarada do interior de São Paulo e eu achei que ia ser fácil, o fato é que não foi, no dia a gente ficou três semanas ensaiando, estava pronto, tinham oito shows marcados em São Paulo, caíram esses oito shows, porque evidentemente um cara disse que queria, mas não deve ter vendido, não depositou dinheiro, não tinha show. Eu fiquei aqui, com uma banda com um show pronto, mas não tinha onde tocar.

O ano de 2000 é um ano marcante na minha vida, porque daí, nós voltamos, a frustrante expectativa, a frustração das minhas expectativas com o “Para Quando” me trouxe de volta os Titãs. Em fevereiro de 2001, eu fui produzir o disco da Cássia, o “Acústico”. A MTV convidou ela para gravar o disco, mas quis que eu produzisse o “Acústico”. Os meus shows miaram, a banda acabou, eu ia voltar para os Titãs, a gente estava mixando o “Acústico” no Rio de Janeiro, a gente gravou aqui em São Paulo, levou para mixar lá. Eu tinha aqui e os Titãs tinham um prazo para voltar e eu sabia que tinha gente que tinha viajado. Eu me lembro da minha aflição, eu fiz duas músicas só que entraram no disco, que veio a ser “A Melhor Banda de Todos os Tempos da Última Semana”, meu último disco com os Titãs, o último disco do Marcelo, disco que a gente gravou pela Abril. Eu terminei as três músicas que eu levei para os Titãs, que foi o nosso reencontro, no período de ensaios na casa do Charles, aqui em São Paulo. Nosso cronograma de trabalho era ensaiar, provavelmente, março, abril ou abril, maio e voltamos. A gente fazia alguns shows durante os ensaios, porque a gente precisava de dinheiro. E quando os Titãs começaram a me pressionar muito para gravar um disco, terminar aquela turnê e entrar em estúdio, eu falei: “Vocês estão loucos, eu sou contra. A gente vem de uma turnê exaustiva, a gente perdeu o Marcelo e eu perdi a Cássia, ela morreu, eu não aguento”. A última coisa que eu quero é terminar tudo isso e entrar em estúdio todos os dias e olhar para Sergio Britto, que amo, mas não tinha condição. E ficou-se uma coisa assim, eu falei: “Não, eu sou contra”, ele falou: “A banda vai entrar em estúdio”, eu falei: “Eu não vou entrar”, então ele falou: “Então, você está fora” “Então estou fora”. Dia sete de setembro de 2002, meu grito de independência! Dom Pedro III José Fernando saí dos Titãs, o último show foi horroroso, a gente estava no Norte, São Luiz, o último foi Manaus.

Então, depois que eu lancei o disco o “Para Quando”, eu fiz essa turnezinha mal sucedida e saí dos Titãs, abriu-se um espaço na minha vida para me dedicar a minha carreira, o que movimentou. A própria saída dos Titãs tinha como objetivo isso e eu tinha consciência de que era um renascimento, aliás, a reconstrução, a construção daí de uma etapa profissional muito distinta e que exigiria uma certa, os Titãs tocavam para dezenas de milhares de pessoas. A gente vinha, embora numa curva um pouco descendente, os Titãs estavam num patamar muito diferente do que eu já tinha percebido pelas experiências isoladas de discos solos, que seria um outro patamar e tal e isso que inclusive me agradava, até a própria ideia de trabalhar, de voltar a tocar em lugares menores e criar uma identidade. Esse conceito de banda que era dos Titãs constituía a minha gênesis, o meu DNA e por isso que rapidamente, mesmo para a banda que eu montei para divulgar o “12 de Janeiro” conheci o Cambraia, o Pontual, o Alex veio para gravar o primeiro disco que eu fiz já na Universal, pela gravadora pela qual eu fui contratado, primeiro disco solo e eu trouxe o Berrett, que era o baterista que gravou lá em Seattle, o Alex também, eles gravaram e o Alex. Foi daí que eu posso dizer que começou com mais continuidade a ideia de ter uma banda, que no disco seguinte “MTV ao Vivo” eu batizei de “Os Infernais”. 2001 morreu todo mundo, em 2002 eu me separei dos Titãs. Eu já me confundo um pouco, mas, tudo bem, se não for nesse ano é estranho, deve ter sido nesse ano. Eu acho que toda essa questão, a saída dos Titãs e a separação da Vânia fazem parte, hoje eu posso perceber, de um certo processo de busca de identidade própria. Daí sim, eu estava na Universal e lá fiz alguns, muitos, três discos de estúdio: “A Letra A”, depois o “Sim e Não”, depois “Drês”, intercalado entre todos eles por discos projetos, vamos dizer assim, o “MTV Ao Vivo”, depois 2005, e daí, o “Lual” e depois o “Bailão do Ruivão”, todos eles vinculados, próximos com a MTV, que era uma emissora importante e não dá para dissociar também o fato de que eu separei da Vânia, porque fui namorar a Anna Butler, que era diretora da MTV, as coisas sempre acabam misturadas.

Assim, profissionalmente, eu tinha um desejo e sabia que tudo começaria com a formação de uma banda, para que eu pudesse ter uma sonoridade minha, eu como disse, gosto de banda. Abri um escritório meu, pois eu tive relações que não foram muito satisfatórias com outros empresários, eu tinha uma ideia que sempre me acompanhou de que a relação empresário/artista, eu queria me tornar a minha autossuficiência ou o projeto de solo concebia toda essa montagem: a formação de um escritório, cuidar da minha editora.

O Bar Opinião, que é um lugar típico de rock, por conta de acreditar que era um lugar onde eu me sentiria confortável, poderia registrar com fidelidade e mais espontaneidade a minha movimentação em cima do palco. Então, eu fui para Porto Alegre por isso e foi incrível, porque eu fiz uma música com o Arnaldo, que chama-se “Mantra”, porque assim, eu sabia, sabe? Que nem os Titãs tiveram a sacada de chamar músicos, convidados para fazer o “Acústico”. Eu me lembro bem que eu fui assistir o “Acústico” do Ira e eu estava assistindo, eu estava com uma gripe, eu me lembro assim, não conseguia nem ver o show direito, e daí eu fiquei pensando: “Se me chamassem para fazer um “Acústico”, quem eu convidaria?”, foi nesse dia que eu tive um insight, essa ideia de chamar os Hare Krishna… A gente fez essa turnê com os Hare Krishna em algumas cidades…

Hoje eu vejo que mesmo separado da Vânia fisicamente, até envolvido com outras pessoas, eu nunca deixei de ser casado com ela. Então, nós vivemos dessa maneira, separados, vamos dizer, casados de novo mais adiante, 2009 eu acho, não sei, tanto faz, 11, dez. Em algum grau, tanto na questão de estar presente, eu sempre vivi, acho que isso, inclusive, ocupou um espaço que dificultou as minhas outras relações se desenvolverem, a ponto de que eu separei da Nani, voltei para Anna, depois, separei da Anna e fui namorar a Adriana. Para a Adriana que eu fiz o meu outro disco, o “Drês”. Então, eu estou muito satisfeito, assim, a sensação, eu posso descrever que eu tenho, eu levei 50 anos para subir uma colina, agora eu quero olhar a paisagem e curtir o lugar que eu estou. Cansei de ficar sempre sonhando, eu tenho muita coisa, eu tenho muita coisa linda que eu construí e aliás, a força construtiva foi sempre muito maior do que a destrutiva.

30th dezembro, 2014

24 Commentários

24 Comentários

  1. Pingback: Som de Papo

  2. Pingback: O All Star conversa no Relicário abraçado ao Segundo Sol | Agenda Jundiaí

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *