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01 Aug 2013 | Sei

Fã Clube Nando Reis

NANDO REIS – REVISTA STATUS

NANDO REIS – REVISTA STATUS

1941aA barba do ruivão está ficando branca. O músico acaba de completar 50 anos e, pela primeira vez na carreira, está solo de verdade. Após um intervalo de  três anos sem gravar músicas inéditas, José Fernando Gomes dos Reis, ou simplesmente Nando Reis, lançou o CD independente Sei, disco que escreveu, produziu e que só pode ser comprado diretamente em seu site. Os 20 mil CDs prensados estão na casa em que Nando mora, sozinho, a alguns passos do estádio do Pacaembu, onde ele recebeu a Status para uma entrevista. O preço do CD oscila de acordo com a procura. A cada semana, o valor cobrado é a média das ofertas feitas por todos os interessados. “Estou muito mais feliz assim. Como não sou um grande vendedor de discos, para mim não fez grande diferença. Ter uma gravadora não altera o meu placar”, diz ele.

Nando é um dos dez compositores que mais arrecadaram direitos autorais no País em 2012. Divide a liderança com Roberto Carlos, Adele, Sorocaba e Thiaguinho. Mas quem o vê nessa lista não imagina como é difícil para ele se manter nessa posição de fazedor de hits. “Essa maneira como as pessoas me veem me envaidece, porque as músicas que eu faço agradam e fazem sucesso. Mas esse não é o meu objetivo”, diz ele. “Para manter a qualidade daquilo que faço, preciso de fato criar uma barreira, que é distintiva entre aquilo que eu sou e aquilo que eu significo. Eu não sou o Nando Reis. Eu não hajo como Nando Reis. Eu não acordo como Nando Reis. Eu assino como Nando Reis porque isso é uma formalidade. No dia em que eu fizer música como Nando Reis, estou fodido.”

Pai de uma prole de cinco, idades variando de 6 a 26 anos, o músico reatou recentemente com Vânia, psicóloga e mãe de quatro dos seus filhos. Tinha ficado com ela por 20 anos antes da separação, há quase dez. No meio tempo, teve um filho com uma namorada do Sul. “Sou um homem avesso ao casamento. E a única pessoa que entende esse avesso e faz dele algo positivo é a minha mulher, a Vânia. Dela eu gosto de ser marido”, diz ele.

CONFIRA A ENTREVISTA ABAIXO:

Status: – Você é um letrista de mão cheia, responsável por alguns dos maiores hits dos últimos tempos. Quando você lê ou ouve alguém falar isso de você, o que passa pela sua cabeça?
Nando Reis: – Essa maneira como as pessoas me veem, não sem razão, de certa maneira me envaidece, porque as músicas fazem sucesso, tocam as pessoas. Mas esse não é o meu ofício, não é o meu objetivo. Eu prefiro, nesse ponto, ser extremamente individualista e excessivamente vaidoso: eu só quero me agradar. Esse é o único parâmetro confiável que tenho. E para que esse parâmetro não fique contaminado por um monte de variáveis que estão presentes no meu trabalho, eu preciso de fato criar uma barreira, que é distintiva entre aquilo que eu sou e aquilo que eu significo.

Status: – Quem é você então?
Nando Reis: – Eu não sou o Nando Reis. Juridicamente ou civilmente eu sou José Fernando Gomes dos Reis. Para os meus filhos eu sou o papai. Para os meus familiares eu sou o Nando. Para alguns antigos amigos o Nando Ruivo. Nando Reis é quase uma marca fantasia. Eu não hajo como Nando Reis. Eu não acordo como Nando Reis.

Status: – Mas você se sente preso a essa figura de Nando Reis?
Nando Reis: – Eu não quero misturar. Quero o isolamento total. A única forma que me agrada, que sustenta meu interesse, que dá sentido a subir no palco é ignorar totalmente que sou um sujeito tímido e pouco sociável. Existe muito esforço. E uma parte daquilo que minha profissão exige e que eu aprendi com o tempo e desempenho com razoável habilidade é esse lugar. Eu assino como Nando Reis porque isso é uma formalidade. No dia em que eu fizer música como Nando Reis, estou fodido.

Status: – Como assim?
Nando Reis: – A música depende de uma aproximação, de uma concentração. Eu faço músicas sozinho em casa. É preciso se desprender desses contornos e um deles, talvez o primordial, é achar que eu tenho que fazer sucesso, que eu tenho que fazer uma música com a cara do Nando Reis, embora eu saiba que eu faça músicas porque eu quero gravar discos, porque eu preciso disso. A qualidade do que eu produzo tem a ver com essa proteção que exige esforço e me dá mais trabalho do que gravar ou subir ao palco. É não achar que eu trabalho para o Nando Reis. Ele não é o meu empregador. Ao contrário, o Nando Reis é a marca fantasia em que eu posso transformar a minha criatividade e o meu talento no meu sustento.

Status: – Mas você já teve que escrever músicas sob encomenda. Como funciona seu processo criativo nessa situação?
Nando Reis: – Já tive e gosto. Só para esclarecer, não trato da criação como um estado privilegiado e alienado de toda a minha necessidade. Não, ela está associada. Gosto e faço músicas sob encomenda. Aliás, acho que trabalho bem sob pressão. Fazer coisas que não são decididas por mim me humaniza e me distancia daquilo que é o detestável endeusamento da persona do artista.

Status: – Qual é a sua relação com o jeito que se consome música atualmente?
Nando Reis: – Eu não faço apenas músicas, faço discos. E disco, para mim, é uma experiência multissensorial, não é apenas colocar um fone de ouvido e ouvir a música que você gosta. E nesse ponto a facilidade do mp3, da internet, entra em contradição com aquilo que eu defendo que é um pouco de sacralização, de tratar aquilo que é mais ordinário e prosaico, que é simplesmente ouvir uma música, de uma maneira que mereça a devoção.

Status: – A reunião para a comemoração dos 30 anos dos Titãs deu saudade dos tempos da banda?
Nando Reis: – Eu tenho saudade da felicidade e da alegria dos momentos que tive com os Titãs. E que está eternizado na qualidade das canções que a gente fez. Embora eu seja compulsivo e, às vezes, obsessivo, tenho uma relação com a minha vida em que sei que as coisas não se repetem. Então foi uma delícia reencontrá-los e viver aquela noite, mais do que no palco, no encontro. Eu sinto falta. A quantidade de tempo que a gente dividia era grande. E a alegria, o tipo de conversa, o barato que a gente tem de amigo. Mas a saudade não significa que eu tenha vontade de voltar com a banda. Não há mais o que ser feito.

Status: – O que você ouve de música?
Nando Reis: – Eu ouço muita música, eu compro muita música, vinil e CD – não baixo música, não sei fazer e não gosto disso –, mas coisas antigas, embora eu também compre coisas novas. Ando ouvindo exaustivamente Novos Baianos Futebol Clube, um disco importante na minha vida. Também tenho ouvido Refavela (do Gilberto Gil) e Gil e Jorge (de Gil e Jorge Benjor). E meu próprio disco. Não sinto falta de nenhuma outra música.

Status: – E coisas novas que seus filhos estão ouvindo e você acaba escutando? Não existe nada que tenha chamado a sua atenção?
Nando Reis: – Sim, a minha filha Zoé, 13 anos, me mostrou uma banda que se chama Foster the People (banda de indie rock de Los Angeles), ou qualquer coisa assim. Eu ouvi com atenção, porque mais do que a música o que me interessa é o que a música desperta neles, embora não faça uma avaliação científica. Meus filhos gostam de um monte de coisa, mas não posso dizer sinceramente que nada que eles tenham me trazido me chamou a atenção. Só não tenho muito saco para música eletrônica.

Status: – E essa onda do tecnobrega, o que você acha dela?
Nando Reis: – Toquei com a Gaby Amarantos em Belém recentemente e achei demais. Mas muito mais do que o tecnobrega dentro do cenário… Eu não sou antropólogo, aliás, me dou o direito de ser pouco isento nesse assunto. Todo mundo quer saber a minha opinião sobre música, mas a minha opinião é a que devia ser menos ouvida porque eu perco os critérios. Eu misturo a música por amor, por raiva, por inveja, por incompreensão… Mas muito mais importante do que avaliar o tecnobrega foi estar lá, tocando com aquelas pessoas. É assim que absorvo a música contemporânea. E confesso que conheci a música dela naquele momento e gostei.

Status: – Como você avalia a crítica musical no Brasil?
Nando Reis: – Fraca, superfraca. Eu leio e assino revistas de música, acompanho o trabalho de jornalistas que fazem matérias e resenham discos novos, e não é que eu não respeite, eu acho que a crítica tem um lugar muito importante. O meu problema com a crítica musical no Brasil se mistura com algo que acho desprezível, que é a avaliação que a pessoa faz do artista e o lugar que o trabalho tem no cenário musical. A terceira coisa que importa é exatamente o que está sendo feito. E isso compromete a isenção necessária para uma avaliação crítica. Então acho que está mais para coluna de fofocas do que qualquer outra coisa.

Status: – Você está com quase 50 anos. Já dá para afirmar ou filosofar sobre o que aprendeu com a vida?
Nando Reis: – Cada vez mais quero combater a minha dispersão, o desperdício de tempo. Quero aproveitar mais o que tenho. Ouvir mais os discos que tenho do que querer comprar outros discos.

Status: – As maiores intérpretes das suas canções são mulheres. Por que você acha que elas se interessam mais do que os homens em gravar as suas músicas?
Nando Reis: – O fato é que minha relação com a música passa pela voz feminina e a origem disso é a voz de minha mãe. Sou totalmente apaixonado e seduzido pela voz feminina. Cássia (Eller) e Marisa (Monte) têm vozes que eu fico feliz de ter feito músicas para que elas cantassem. Como não ligo para essa questão de gêneros e de polos, eu prefiro, na verdade, iluminar a lua. Essa é a melhor imagem. Eu sou o sol que não aparece.

Status: – O disco Sei foi lançado de forma independente. A Universal não ter renovado o contrato incomodou a você?
Nando Reis: – Me chateou e surpreendeu. O argumento era que eu não vendia. Me mostraram uma planilha em vermelho e azul, e os meus discos estavam no vermelho. Eu disse: “Desculpa, mas eu faço música. Quem não soube vender foram vocês, então eu é que deveria despedi-los.” Não quero que fique a impressão de ficou um sentimento de rancor. Não existe isso. Estou muito feliz. Como não sou um grande vendedor de discos, para mim não fez grande diferença. Ter uma gravadora não altera o meu “placar”.

Status: – Você não acha muito arriscado deixar essa decisão nas mãos dos consumidores?
Nando Reis: – Qual é o risco que tenho? Em uma semana o disco estar a R$ 19, e em outra a R$ 24? Arriscado seria estar submetido a uma forma dogmática de vendê-los, à qual eu não tinha acesso e não poderia alterar, e que, evidentemente, estava fadada ao fracasso e indo ao colapso. E dentro desse colapso eu não significo nada, a ponto de não ser relevante para estar no casting de uma gravadora.

Status: – Você já disse que era um cara que nasceu para casar e ter filhos. Depois, que não era um homem para casar, nos moldes do casamento convencional. O que pensa hoje sobre o casamento?
Nando Reis: – Eu gosto do meu “recasamento” com a Vânia. Não renego nenhuma das duas afirmações, mas acho que estou mais para a primeira resposta. Sim, eu sou um homem avesso a casamento. E a única pessoa que entende esse avesso e faz dele algo positivo é a minha mulher, a Vânia. Dela eu gosto de ser marido. Esse modelo de casamento tradicional não cabe para mim. Eu não penso dessa maneira. Eu quase não entendo essa pergunta, embora eu saiba que ela tem sentido porque a maioria das pessoas pensa assim.

Status: – Alguns dos seus filhos são adultos. A Sophia, por exemplo, virou atriz, tem uma legião de admiradores do sexo masculino. É difícil ver a sua filha ser desejada por outros homens?
Nando Reis: – Claro que não! Esse orgulho que alguns pais têm ao dizer “meu filho come outras mulheres” é meio babaca. O que eu quero é que meus filhos sejam de fato desejados. Sejam possuídos. Que tenham suas relações pessoais. E, ao mesmo tempo, eu quero que isso seja parte da vida deles e não da minha. Eu não quero saber. Eu não penso nisso. Minha filha não é minha propriedade. Como eu também não sou propriedade dos meus filhos. Eu não quero que eles saibam da minha vida. A intimidade é nossa liberdade.

Status: – Qual é o seu maior medo?
Nando Reis: – Morrer.

Status: – Como você gostaria de morrer?
Nando Reis: – Igual ao Oscar Niemeyer, com idade de tartaruga.

Status: – Como um bom torcedor fanático, qual a sua opinião sobre o time do São Paulo hoje?
Nando Reis: – Finalmente temos um bom time. Desde a saída do Muricy o São Paulo não tinha um time que eu pudesse ver um padrão de jogo. Adoro o fato de o Ganso ter sido contratado. E lamento a venda do Lucas. Gostaria muito de ver os dois jogando juntos.

Status: – Você se identifica com alguma torcida organizada do São Paulo?
Nando Reis: – Não, detesto. Não me filio.

Status: – E a Copa de 2014, o que espera dela?
Nando Reis: – Espero estar bem longe do Brasil.

Status: – Gostou da indicação do Felipão para técnico da Seleção?
Nando Reis: – Eu gosto dele. Achei bom. O problema não é o técnico, é o que vem antes, a CBF. Eu detesto tudo o que acontece na administração do futebol.

Status: – Quem é o maior craque do Brasil hoje?
Nando Reis: – Paulo Henrique Ganso.

18th abril, 2013

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