Sei
01 Aug 2013 | Sei

ENTREVISTA

Como é para um são-paulino não ver ninguém do seu clube na seleção?
É a primeira vez. Tem um lado meio bobo nos critérios adotados, até pelo Dunga, de que quem joga lá fora é melhor do que quem joga aqui. É ridículo, como se fosse uma chancela de qualidade que na prática não é realidade. Mas, curiosamente, dois atletas que serão para sempre vinculados ao São Paulo estão lá e fizeram a diferença, o Luís Fabiano e o Kaká.

E que tal esse time?
Tem tudo para ganhar a Copa. Eu, que não sou apreciador do Dunga, entendo os critérios dele. Tem muita coisa dentro de um trabalho de grupo que só quem está dentro sabe como é. Posso citar, num paralelo, o que acontecia com os Titãs.

Aquilo de que um grupo unido é melhor do que um com novos integrantes?
Sim, e isso não pode ser contestado por quem está de fora. Nesse sentido, o Dunga tem muita coerência. Os clichês que ele usou, sobre comprometimento, não parecem ter sido algo da boca para fora. Já no segundo jogo deu para ver que há uma força nesse time. Deu para sentir uma cumplicidade ali. Não estou lá, e acho essa guerra da imprensa com ele uma babaquice.

Ele ter xingado um jornalista?
Bicho, isso é meio ridículo, uma questão até de educação. Mas não que o pessoal seja muito fino.

Os jornalistas é que provocam?
Não sei. Mas, posso falar? Conheço jornalista, é uma racinha também. Puta saco de gente que só vai pegar na ferida, só prefere a notícia maledicente. Claro que não são todos, mas a tônica da imprensa brasileira é sempre pegar o ponto fraco e bancar o forte ao apontar para o mundo a grande falha. É chato pra cacete. Não estou aqui para defender o Dunga, e talvez ele não tenha mesmo habilidade para isso. Estamos falando sobre essa relação da imprensa. O clima lá deve estar horroroso, péssimo. Mas essa disputa para mim, como torcedor, não interessa. Ela polui totalmente os jornais, as matérias na TV. E há um excesso de cobertura também. Detesto isso de vigiar todo mundo 24 horas por dia com 40 câmeras.

Já o Maradona dá um show por dia. O que você acha dele?
Adoro. Tem toda a tragédia, a forma como a Argentina se classificou. Ele é muito representativo desses altos e baixos, e é muito carismático. Com aquela barba branca, aquele cabelo, aquele terno em que parece o Mini Me (anão do filme Austin Power) e, ao mesmo tempo, é um gigante. No segundo jogo, deu aquela matada de letra, a bola morreu ali e ele, impávido, olhou como se não tivessem bilhões de pessoas vendo que ele fez algo genial, com uma técnica que 80% dos jogadores da Copa não têm. Adoro ele. Enquanto a Argentina está ganhando, está ótimo. Torço muito para a final ser Brasil e Argentina. Seria a glória.

Você é dos que querem que a Argentina ganhe?
Claro que não. Sempre quero que o Brasil ganhe. Seleção é seleção, não é o meu time. Com o meu time, tenho uma relação diferente. Sou um torcedor apaixonado pelo São Paulo, acompanho tudo, vou aos jogos. É diferente. A seleção eu gosto, e adoro Copa. Estou gostando dessa, mesmo com nomes que não me agradam.

Se pudesse tirar três e colocar três, quais seriam?
Tiraria Gilberto Silva, Kleberson e Felipe Melo. Colocaria Ganso, Hernanes, e teria chamado o Ronaldinho Gaúcho. Ele nunca voltou a ser o que foi um dia, mas é um craque. Gosto de gente com um pouco mais de refinamento técnico. O Pato é outro. Mexeria nessa área.

Como você assiste aos grandes do futebol tropeçando?
Com alegria (risos). Torço contra. Nunca gostei da Espanha. Para mim, favorito é quem já ganhou Copa alguma vez. A Espanha ganhou? A Holanda ganhou? A França, então, não tinha nem que ter entrado. E sai do mesmo jeito que entrou: feio. É bom, para a Fifa ver que não adianta entrar roubado, numa repescagem, com um gol de mão, uma raquetada daquelas.

Apesar dos protestos, a Fifa deixou claro que não pretende usar tecnologia para esclarecer erros de arbitragem. O futebol tinha que incorporar auxílios, como o chip na bola, câmeras para atestar impedimento, ou é mais romântico deixar como está?
(Suspira) É muito louco. A graça do jogo é que ele é uma espécie de metáfora da vida. Em parte, concordo com a Fifa: tem de ter um componente de subjetividade, até mesmo de uma certa injustiça, porque a vida não é assim tão exata. O juiz também faz parte do jogo. Ele tem que ter o mesmo grau de humanidade dos jogadores, poder errar ou acertar. Se o entrar todo paramentado com câmeras e chips, pode descaracterizar não apenas o sentido romântico do jogo, mas humano. O juiz ter autoridade, sendo um sujeito que pode errar, parece um contra-senso mas é talvez o grande charme do futebol. Não por nostalgia, mas um dos aspectos mais interessantes do futebol é justamente essa relatividade, essa subjetividade do que vale ou não vale. Eu ficaria muito (enfático) triste se o gol do Luís Fabiano tivesse sido anulado (no segundo jogo, dominou a bola no braço depois de dar dois lençóis no adversário). Se a gente for analisar cada cobrança de escanteio em câmera lenta, não tem jogo. Ou, então, vai demorar três anos para todos se reeducarem por causa da tecnologia. Não estou disposto a perder três anos de futebol. Estou de saco cheio da tecnologia.

Parece que esse sentimento extrapola o futebol, é isso?
Estou de saco cheio desse mundo em que todo mundo vê tudo, sabe de tudo, escreve tudo. Da tecnologia, dessas redes sociais onde as pessoas têm uma impostura de identidade. Ao mesmo tempo que isso está associado à velocidade e à liberdade, tem um outro lado. Há uma esquizofrenia oficializada nesse mundo onde as pessoas se encontram sem se conhecerem, vivem sem saírem de casa. É doentio, não é saudável. Não pertenço a esse mundo. Não são relações humanas, são relações esquizofrênicas. Twittar sobre os assuntos que estão acontecendo na hora me dá enjoo. É muita neurose, vaidade demais.

Há um deslumbramento com as redes sociais, não?
Vai além disso. Como tudo é muito rápido, substituível, e estão todos acostumados com isso, eu, por ter 47 anos e ser do século passado, não entendo. Não gosto. Embora, é claro, dialogue e conviva com isso. Não estou dizendo que a gente deva voltar a mandar carta pelo correio, nem que tudo é uma droga, mas essa ideia de que só há benefícios não me convence.

Encerrando o assunto futebol, o que você achou da CBF excluir o Morumbi (estádio do São Paulo) da Copa 2014?
É uma tremenda questão política. Tem uma indisposição do Ricardo Teixeira (presidente da CBF) com o Juvenal Juvêncio (presidente do São Paulo). O Ricardo Teixeira oficializar isso, lançar essa bomba no meio da Copa, enquanto a atenção está totalmente desviada, sendo que o próprio Jérôme (Valcke, secretário geral da Fifa) disse que nada seria decidido durante essa Copa… Quer saber? Vai ser uma roubalheira, uma vergonha a Copa no Brasil. Sou contra, embora como torcedor tudo que sempre quis é assistir a uma Copa do Mundo. Acho ridículo. Mas, resumindo: para mim, cada estádio (a ser construído) é um bolsão de corrupção onde o Ricardo Teixeira deve organizar sua malta de larápios para pegar dinheiro onde der. E como ali, no São Paulo, tinha uma coisa diferente…

Um dinheiro mais controlado?
Como eles viram que no São Paulo seria mais controlado, pensaram: “Aqui a gente não vai pegar dinheiro? Então não vai dar.” Então é isso: política. Política de ladrões (enfático).

Passemos, então, para um tema menos obscuro. No que você está focado agora, tem álbum novo a caminho?

Vou gravar um DVD, que deve sair em outubro. Até agora, o apelido dele é Bailão do Ruivão, porque em toda a minha carreira solo, venho colocando nos bises dos shows músicas que gosto de tocar. São quase pequenas homenagens, coisas que gosto e que fogem do estereótipo rock’n’roll. Whisky a Go-go, do Roupa Nova, Lindo Balão Azul, do Guilherme Arantes, Muito Estranho (Cuida Bem de Mim), do Dalto, Fogo e Paixão, do Wando. Fiquei animado em gravar. Por outro lado, no ano passado lancei o Drês, com 12 inéditas, um disco lindo, que adoro… É cada vez mais custoso fazer um disco.

Você diz por grana?

O custo emocional. Entrar no estúdio, tirar de dentro de si aquelas 12 músicas, entrar em turnê e lançar é um processo exaustivo. Ao mesmo tempo, é muito frustrante que o mercado tenha se encolhido a tal ponto que não acontece nada. Não aconteceu com o Drês. A música que estourou, Pra Você Guardei o Amor, era tema de um casal da novela das seis (Cama de Gato). Resolvi que não vou gravar outro de inéditas. É preciso intercalar, porque tenho uma sensação de desperdício.

Como é o seu processo de criação, flui ou tem de ser induzido?

Cada vez mais, tenho de me esforçar mais para compor. Além da demanda de trabalho, tenho uma dúvida comigo mesmo: “Será que vou conseguir compor uma próxima melodia que me agrade?”. Não acho que exista essa garantia. Ao mesmo tempo, olho para o que fiz e sei que tenho essa capacidade.

Você teve uma parceria muito marcante com a Cássia Eller. Como foi?

Incrível. Um encontro muito especial. Convivi muito com ela em 97, quando estava no Rio gravando com os Titãs. Passamos muitas noites juntos, só os dois, tocando violão, conversando e rindo muito. Isso criou uma relação de trabalho que é das coisas que mais gosto, e que já tinha feito, em parte, com a Marisa Monte — com quem eu trabalhei, a gente namorou, compôs junto — e com a Vange Leonel, de quem fui produtor, com o Charles (Gavin). Sempre quis trabalhar com cantoras como produtor e diretor musical.

Qual é o barato?
Estar à sombra. Ser iluminado por uma estrela que é uma força solar. Voz de mulher é a coisa mais linda que existe.

Com quase 30 anos de estrada, você viveu momentos bem distintos do mercado da música. Como enxerga cada um?
Assisti àquela orgia, a megalomania dos anos 80. Depois, nos 90 mudou um pouco, apareceram os selos e surgiram grandes artistas com isso, o Planet Hemp, o Raimundos. Nos anos 2000 começou aquela dançada. Os executivos não se deram conta do que estava acontecendo com a internet. Muito preocupadas em combater a pirataria vendida nas esquinas, as gravadoras não se deram conta de que havia algo irreversível. Acharam que o inimigo era um, mas não era, e perderam quase todo o direito da reprodução da música.

E como você lida com o fã que baixa sua música na internet?
Me comunico com ele, não tem como. Tenho um site, 100 mil seguidores no Twitter. Um monte de gente se relaciona com meu trabalho pela internet, tanto que meus shows estão cheios, mas meus discos vendem pouco porque não há mais mercado de disco.

Voltando ao Titãs. O grupo enfrentou a perda do Marcelo Fromer (morto em 2001, atropelado), a sua saída (em 2002), antes, a do Arnaldo Antunes (em 1992) e, no entanto, hoje parece que vocês são muito amigos. Quanto disso é verdade?

Faltou a saída do Charles (Gavin, há quatro meses). Mas é 100% verdade, embora a nossa amizade tenha mudado. Coincidentemente, encontrei os três agora, Branco (Mello), Paulo (Miklos) e (Sérgio) Britto, indo para o Rio. Pegamos o mesmo avião. Foi adorável. Em dez minutos e é como se eu tivesse estado com eles ontem. Claro que na minha saída a gente viveu dois anos estremecidos. Hoje, teria evitado meia dúzia de atitudes tolas que tomei, mas a gente relativizou tudo, e vamos guardar a grande história que temos. Uma das coisas fundamentais para que tudo de fato se acalmasse foi quando o Branco lançou o documentário, dele e do Oscar Rodrigues Alves, que conta a história linda dos Titãs (A Vida Até Parece uma Festa, de 2009). Depois de um filme daqueles, todas as picuinhas se tornaram completamente irrelevantes.

Como você vê as bandas de rock atuais?

Detesto essa pergunta, não respondo. Não nasci para ser crítico. (Hesita muito) Ainda espero uma banda que me desconcerte. Cada vez mais, ouço o que gosto. Semana passada fiquei a tarde toda ouvindo Gil & Jorge, que é de 75, um dos discos mais importantes a construção do que sou. Sou um reouvinte muito mais que alguém ávido por novidades, até porque tem 40 milhões de bandas hoje. A última com que de fato chapei chama-se Fleet Foxes (folk indie dos EUA), e eles lançaram o primeiro disco dois anos atrás.

O Arnaldo Antunes, no último disco, fala de uma forma bem particular sobre o envelhecimento. Como está sendo para você?
Tem a parte boa e a ruim. Fisicamente estou muito bem ainda, até melhor do que há 15 anos. Faço academia cinco vezes por semana e, ao mesmo tempo, continuo com hábitos selvagens: durmo tarde, gosto de beber, fumo cigarro sem filtro. Bicho, sou rock’n’roll. Embora tenha 47 anos, me sinto muito jovial. A juventude é muito mais a satisfação com a idade que se tem. Velho é quem sente necessidade de ter uma idade que não têm. Por mais que eu tenha saudades da vida incrível da adolescência e da juventude, a angústia que vivi, e não vivo mais, faz com que eu seja feliz com a idade que tenho. Essa é a compensação, porque há perdas inegáveis. Tinha um cabelo lindo que hoje é uma lembrança do que foi, hoje tenho que fazer força para manter a saúde.

Como é ser pai de adolescentes e jovens adultos?
E também sou avô. Tenho uma neta, Luzia, de 3 meses, filha do Theodoro, que tem 24 anos. Me sinto mais seguro para lidar com a adolescência, um período supercomplicado na vida de qualquer pai (risos). Na terceira (Sophia tem 21 anos, Sebastião, 15, e Zoé, 10, todos do casamento com Vânia), talvez não me confunda tanto quanto antes. Mas é uma delícia. Adoro meus filhos, admiro meus filhos. Lamentavelmente não convivo tanto com o Ismael (de 3 anos, da relação com Nani), que mora em São Leopoldo (RS).

Agora uma pergunta a ser feita para todo roqueiro. Como foi e como é a sua relação com as drogas?
O problema das drogas é que elas são deliciosas. Algumas delas me proporcionaram momentos maravilhosos de inspiração, de bem-estar. Porém, elas viciam, elas detonam, elas vão perdendo o efeito. É perigoso. Não existe só o bem-estar. Há uma alteração de consciência que pode ser muito perigosa, e isso é muito individual. É natural os jovens se atraírem, é quase natural eles se envolverem, e não sou hipócrita de falar que é ruim apenas. É muito perigoso. _É preciso dizer: “Cuidado”. Tive momentos muito ruins, já me senti muito dependente. Abusei das drogas. Quase arruinei minha carreira por causa delas. Fiz apresentações constrangedoras por estar bêbado e drogado, e sempre tenho vontade de pedir desculpas para as pessoas que pagaram ingresso e me viram naquele estado. Pessoalmente, vivi o auge e os momentos ruins. E esse equilíbrio, que procuro ter na minha vida, é uma receita que cada um tem que descobrir sozinho.