Nando Reis declara sua independência

Depois de quase uma década e cinco discos, no segundo semestre de 2011 a gravadora Universal informou a Nando Reis que seu contrato não seria renovado. Após 28 anos ligado às majors (o primeiro contrato, com os Titãs, foi assinado em 1984), o ruivo, hoje com 49 anos, viu-se um pouco sem chão.

— É claro que fiquei frustrado — admite ele. — Se meus discos não vendiam bem, será que é só por culpa minha? Eu faço música, e acho que faço bem; quem vende discos é a gravadora.
Enquanto seguia na estrada com o “Bailão do ruivão” — disco de regravações como “Whisky a-go-go”, do Roupa Nova, “Muito estranho”, de Dalto, e “Gostava tanto de você”, de Tim Maia, lançado em 2010 —, Nando pensava em seu próximo passo.
— Passei os anos de 2009 e 2010 sem nenhuma inspiração para compor — admite. — Foi ótimo fazer um projeto como o “Bailão”, que eu acalentava há muito tempo, mas realmente não estava saindo nada. Aí, de repente, a torneira abriu, e as canções começaram a sair. Tive algumas propostas de gravadoras, mas resolvi fazer tudo por conta própria. Há várias coisas que não entendo na mecânica das companhias, como a margem de lucro, com discos a R$ 30, que um ano depois custam R$ 5. E ainda me propuseram o tal contrato de 360 graus, segundo o qual eles também passam a ganhar dinheiro com o meu show… Deixei pra lá.
O projeto de um disco com Samuel Rosa, cantor do Skank, foi adiado, e Nando teve a ideia de se unir novamente a um velho colaborador: o produtor americano Jack Endino, que tem no currículo praticamente todos os grandes nomes do grunge, como Nirvana, Soundgarden e Mudhoney, como engenheiro de gravação, e que produziu os Titãs em seu passeio por aquele tipo de som, o furioso “Titanomaquia”, de 1993.
— Eu sempre gostei de sair de São Paulo para gravar — conta ele. — Lá, não consigo me desligar, mergulhar na música, nos ensaios, no processo de gravação. Gravar um disco é como ir para Plutão. E queria muito levar os meninos da banda a Seattle, o Diogo (Gameiro, baterista) e o Cambraia (Felipe, baixista). Pensei no Jack também porque os meus últimos discos foram produzidos pelo Carlos Pontual, que era meu guitarrista, e não está mais na banda. Trabalhar com Jack é uma maravilha: ele faz tudo sozinho, liga os cabos, afina os instrumentos… “Sei” foi o meu sexto disco produzido por ele, e gravar é a coisa que mais gosto de fazer.
Banda começou nos EUA, há 12 anos
O tecladista Alex Veley e o guitarrista Walter Villaça já estavam na banda quando Nando gravou “Para quando o arco-íris encontrar o pote de ouro”, lá mesmo em Seattle, em 2000. O americano Alex já estava na mira de Nando (a banda que depois se chamaria Os Infernais começou a nascer ali, e o tecladista é parte dela desde então), e o baterista Barrett Martin, ex-Screaming Trees, foi sugestão de Endino:
— Por essas e outras eu achava que tinha que levar o Diogo para lá, e ele realmente chapou naquele ambiente roqueiro.
Ah, então, como o dinheiro dá em árvores, Nando levou quatro marmanjos para um mês de gravações em Seattle.
— É claro que tive que fazer contas — lembra ele. — Estou muito no vermelho, mas não posso me importar tanto com isso. E existem vários atenuantes: gravar um disco nos EUA é mais barato do que no Brasil; o Jack não é um produtor caro… E nós alugamos uma casa, o que é obviamente mais barato do que um hotel no Rio.
Já que a espada estava erguida à beira do Rio Ipiranga, Nando decidiu proclamar sua independência também na distribuição.
— O disco só estará à venda pelo meu site, nandoreis.uol.com.br, a partir de segunda — anuncia. — Quem quiser pode ir lá ouvir todas as músicas e sugerir um preço. O disco será vendido pela média de valores sugeridos.
A impressão que se tem ao ouvir “Sei” (leia crítica ao lado) é a de que Nando Reis viajou cerca de 10 mil km e encontrou José Fernando Gomes dos Reis: estão no disco elementos como a homenagem à mulher (“Back in Vânia” e “Praça da Árvore”, para a mãe de quatro de seus cinco filhos, com quem ele se casou pela quarta vez — “Minha certidão de casamento parece um B.O.”, diz), o rock anos 1970 e até o reggae.
— Comprei um DVD, acho que pirata, em que Bob Marley e os Wailers ensaiavam em 1973, e pirei. Isso acabou em “Lamento Realengo”, que é meio samba, meio reggae. Gravei até com um violão de nylon, não tocava um há 15 anos!
Sem demonstrar preocupação com a dívida — “se não voltar em dinheiro, volta de outra forma” —, ele sorri para o futuro.
— No dia 24, o disco sai, o Multishow começa a passar um especial sobre as gravações, e eu e a banda vamos para o estúdio ensaiar — contabiliza. — Pode ser melhor? Ainda participo do show de 30 anos dos Titãs, dia 6 de outubro, em São Paulo. Estou até namorando o baixo…

9 comentários em “Nando Reis declara sua independência”

  1. Nando Reis, parabéns pela sua atitude. Vc representa o que temos de melhor no rock nacional. Vc ja e uma lenda da nossa musica. Sem duvida que seus fãs estarão consigo neste novo projeto, pois todos já conhecem a qualidade de seus trabalhos como cantor e compositor. Nao tenho nada contra quem gosta de outros gêneros de música, que todos consigam seus espaços, só tenho o sentimento de que se gostamos do nossos músicos, como Nando Reis, Arnaldo Antunes, Scandurra, Pitty, Samuel Rosa e tantos outros, vamos valoriza-los. Minha filha ouve e canta esses caras. Valeu Nando, obrigado por sua música.

  2. De TODOS os cantores que eu curto eu só compro cd’s ORIGINAIS, tenho TODOS do Nando Reis, TODOS do Arnaldo… Frejat etc.

    Pago e pago com gosto cada centavo!

    Não financio pirataria, muito menos quando se trata de algo de ter sido feito por que eu admiro.

    Que venha mais um CD pra nos trazer alegria!

  3. Independência está “na moda” entre diversos bons artistas brasileiros, e se viram muito bem.
    Sou fã de um outro cantor que é independente, há alguns anos atrás esteve na tv, rádios e com hits em primeiro lugar nas paradas e hoje está fora desses padrões e nunca se viu tão bom quanto agora! Palavras dele e acredito. Olhando os relatos do passado e de agora, vejo até que o contato entre fã e artista ficou mais sólido.
    Nando Reis é um ótimo compositor e cantor, pode até se sentir sem chão, mas nós estamos aí para mostrar que nem tudo está perdido e que gravadora não é tudo. Quem faz o show é o fã, quem compra disco é fã!
    Concordo com a Marluce, o que é R$: 20,00 para quem é fã e quer possuir um material em mãos de ótima qualidade? Vamos comprar e divulgar!

  4. Li essa matéria ontem no Jornal O Globo e fiquei chocada, indignada com as dificuldades que compositores e cantores do nível do Nando enfrentam para gravar suas canções, que tem conteúdo, são lindas e de um excelente bom gosto! Total falta de respeito, consideração e visão das gravadoras…Mas nós somos os responsáveis por tudo isso que está acontecendo: por incentivarmos o empobrecimento da música brasileira (o prêmio multishow é o exemplo do que estou falando, pois a cada ano vem destruindo e baixando o nível da nossa música, ao premiar pessoas, grupos, que jamais poderemos chamá-los de músicos), por não sabermos escolher corretamente os políticos que vão governar o nosso país…Ou seja, pela inversão total de valores! Por conta disso e de vários outros fatores, que músicos como o Nando Reis e tantos outros, que efetivamente são bons, ficam no vermelho para produzir suas obras oferecendo e proporcionando ao povo brasileiro músicas de qualidade, inteligentes e que faz muito bem aos nossos ouvidos e a nossa alma! Precisamos fazer algo para acabar com invasão de Michels Telós da vida…Sugiro aos fãs e admiradores do Nando, que utilizem o site (www.nandoreis.com.br) para comprar o CD para si e para dá de presente de Natal aos seus amigos, pois certamente estaremos fazendo um bem aos que ainda não pararam para curtir suas canções e o seu som….Como as gravadoras vendem nas lojas por R$ 30,00 e lucram muito com as vendas, acho que o valor de R$ 20,00 para adquirirmos um material de ótima qualidade e ouvirmos trocentas vezes, está perfeito e dentro das nossas possibilidades…Fica aqui o meu desabafo e a minha contribuição no custo do CD… Um beijo no coração, na alma e na cabeça especial do Nando!

  5. Muito ansiosa para ter mais um CD, que por sinal deve ser fantástico e muito especial, em minha prateleira! “Sei” será sem dúvida um dos melhores trabalhos do Nando, a final, tem toda a essência dele.
    Queria muito poder estar pressente no show de 30 anos dos Titãs, mas como não será possível, deixo toda minha energia e desejo que ele brilhe mais uma vez.
    Ah, e como a Kamyla falou: ” Se não volta dinheiro, voltará com o acolhimento e a receptividade de todos”

  6. Não tem explicação, amo demais, se não volta em dinheiro, com certeza volta com todo o carinho da gente pra ele 🙂

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