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01 Aug 2013 | Sei

Fã Clube Nando Reis

Nando Reis no projeto “Video-Wave”

Nando Reis no projeto “Video-Wave”

galileu2Capacetes equipados com eletrodos são capazes de fazer bem mais do que exames médicos para detectar patologias cerebrais. Quando colocados sobre a cabeça de três ou mais pessoas, eles podem dar origem a uma quantidade sem fim de obras de arte audiovisuais, estimulantes e inusitadas. Foi o que mostrou o projeto Video-wave, desenvolvido por um time de pesquisadores da UNIFESP e da USP, em parceria com o cineasta Fernando Meirelles e o músico Nando Reis.

A instalação foi concebida para funcionar da seguinte maneira: até seis pessoas vestem os capacetes, que passam a captar as atividades elétricas do cérebro de cada uma. Depois de um treino de alguns segundos, um programa de computador mapeia as atividades neurológicas relacionadas às intenções, e produz parâmetros personalizados para cada participante.

Basta que eles repitam as mesmas linhas de pensamento para que um software as traduza em padrões de imagem e som. Cada frequência rege a adição de uma cor e o volume de um instrumento musical, sempre de acordo com o grau de ativação do cérebro. Por exemplo, alguém controla os azuis e o baixo; outra pessoa, os roxos e a bateria; uma terceira, os amarelos e o teclado. “A graça do experimento é justamente criar algo em conjunto, uma obra que só se realiza se todos os envolvidos estiverem investidos e unidos para fazer acontecer”, aponta o cineasta Fernando Meirelles, que acompanhou o processo de concepção gráfica, conduzido por Ton Huey, artista gráfico da O2 Filmes, produtora de Meirelles.

Riff mântrico

Cada rodada dura em média de quatro a sete minutos e termina em grande estilo: no momento em que todos atingem o ápice da atividade cerebral, a tela se enche de cores e o ambiente é tomado pelos acordes da guitarra de Nando Reis. A faixa “Pré-Sal”, do álbum Sei, de 2012, foi a escolhida para servir como base.

“Ela me pareceu ter todos os elementos necessários para ser a trilha – um tema circular, mântrico, que pudesse se repetir”, explica Nando. O trecho é instrumental e dividido em três grupos: percussão, harmonia e base rítmica. O desfecho dura cerca de um minuto, e sempre causa grande comoção. “É impressionante: quando finalmente escuta-se a guitarra, as pessoas urram, tamanha é a excitação produzida pela experiência coletiva entre os que estão ativamente envolvidos e os espectadores”, comenta Álvaro Dias, professor e pesquisador na UNIFESP e coordenador da parte de neurociências do Video-wave.

A ciência do pensamento

A instalação explora um novo conceito das ciências do cérebro. “Do ponto de vista científico, introduz uma inovação de peso – trata-se da primeira demonstração de eletroencefalograma social de que se tem notícia”, diz o professor. Isso significa a diversificação no uso da técnica, com possibilidades inovadoras de aplicação nas artes e, no geral, em interfaces que conectam o cérebro às máquinas. Os estudos do neurocientista Miguel Nicolelis apontam diversos caminhos para esta tecnologia.

A ideia inicial de Álvaro Dias para o projeto era ousada: montar uma sala onde 30 espectadores juntos criariam uma obra de arte holográfica, só com a força do pensamento. “As possibilidades de controle das frequências cerebrais e seus usos práticos estão andando muito rapidamente, mas a sensação é de que há muito a percorrer. Creio que esta seja uma das fronteiras mais estimulantes do conhecimento sobre o que somos”, reflete Fernando Meirelles.

Fonte: Revista Galileu

23rd setembro, 2013

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