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01 Aug 2013 | Sei

Fã Clube Nando Reis

“Jogo no limite, me arrisco demais. Tenho essa mística que a bebida favorece a criação”

“Jogo no limite, me arrisco demais. Tenho essa mística que a bebida favorece a criação”

nando-reisA escultura de um lobo coberto de crochê azul na sala de pé-direito alto representa a fase atual de Nando Reis, 50 anos. Isso porque sua peça preferida dentro da casa a poucos passos do estádio do Pacaembu, em São Paulo, parece cantar solitária para a noite. De pés descalços, sentado em posição de lótus sobre o sofá, ele diz que gosta de estar musicalmente sozinho e acaba de dar um novo passo em direção a essa solidão criativa: está independente pela primeira vez. Saiu da gravadora Universal – “disseram que eu dava prejuízo” – mas está na mesma lista que Luan Santana entre os compositores que mais recolhem direitos autorais no Brasil. Nando é assim, “um antagonismo entre transcendência e contenção”, como ele mesmo define.

GQ: Como seu mundo ficaria completo?
Nando Reis: Traria de volta algumas pessoas que deixaram meu mundo mais vazio: minha mãe, Cássia Eller, Marcelo Fromer e Tom Capone. No resto, a gente se vira. A vida não é como um álbum de figurinhas, então não tem essa de estar completo. A graça é ir atrás do que falta. Há algo saudável e vital em não estar completo.

GQ: Hoje você está entre os 15 compositores que mais recebem do Ecad, ao lado de Luan Santana e Sorocaba. Como se sente em relação a isso?
Nando Reis: Acho ótimo. Estar numa lista com artistas que têm apelo superpopular, que não se compara ao meu, não só é espantoso, mas motivo de orgulho pra mim. Sinal que meu trabalho tem alcance popular.

GQ: Quais infernos te atraíram na vida?
Nando Reis: Eu jogo no limite, me arrisco demais. Lembro quando li O jogador (de Dostoievski) e me identifiquei com a alma do jogador. Eu não jogo porque talvez tenha medo de entrar em um cassino e apostar tudo. Meu inferno maior sempre envolveu o limite entre o pensamento e meu envolvimento com álcool e com drogas. O meu antagonismo é entre transcendência e contenção. Tenho uma autocrítica esmagadora. Talvez tenha a ver com a igreja e com meu histórico familiar. Sempre me atraiu quebrar isso e perder a consciência como parte do processo criativo. Só que drogas trazem muito problema e o corpo acusa. Eu não tenho mais 17 anos, tenho 50.

GQ: Entre as drogas que experimentou, qual mais te fez mal?
Nando Reis: O álcool. Eu sou um sujeito sem limites. Já bebi muito e bebo ainda, tenho que ter constante atenção. Gosto do barato que dá, de me embriagar. E a vodka tem a ver com minha relação com Dostoievski. Eu li Crime e Castigo aos 15 anos, em um estado febril, igual ao do personagem, durante um fim de semana. Me identifiquei muito. Aí comprei a minha primeira vodka. Minha família tem uma cultura de beber. Meu avô bebia uísque, meu pai também, mas era uma relação diferente, era semanal. Quisera eu voltar a essa relação. Eu trabalho com música e tenho essa mística que a bebida favorece meu estado de criação. Mas não é sempre que rende, às vezes atrapalha.

GQ: O que foram seus 20 anos?
Nando Reis: Foi quando tudo aconteceu. Saí da adolescência (com 19 anos), entrei para uma banda, fiz os discos mais incríveis que essa banda já criou. Casei com a mulher que eu amava, tive meus filhos, viajei pelo Brasil.

GQ: E os 30?
Nando Reis: Foi uma década mais pesarosa. Mas também foi a loucura do acústico: com o dinheiro, consegui comprar uma casa.

GQ: E os 40?
Nando Reis: Foi quando trabalhei para estruturar minha carreira solo.

GQ: Como foi sua saída da Universal?
Nando Reis: A Universal não quis renovar o contrato porque eu dava prejuízo. E eu, que nunca tinha olhado para essa relação com as gravadoras, fiquei meio chocado quando me vi nessa situação. Mas agora quero resgatar essa parte do trabalho. Minha profissão não é fazer músicas, é fazer discos. O disco é um objeto que está se perdendo e isso me choca.

GQ: Qual é o melhor disco que você já ouviu?
Nando Reis: O disco da minha vida é o Expresso 2222, do [Gilberto] Gil. As músicas são maravilhosas isoladamente, mas se não tivesse as ouvido na sequência (Banda de Pífaros, Back in Bahia e Canto da Ema), não seria a pessoa que sou.

GQ: Vender seu álbum pela internet é a lógica “se não pode vencer o inimigo, junte-se a ele”?
Nando Reis: A internet é muito boa, mas o uso que se faz dela não é só bom. É um pensamento em médio prazo: quero incutir nas pessoas que gostam do meu trabalho o hábito de comprar o disco comigo.

GQ: Esse novo sistema é mais vantajoso que se associar a uma gravadora?
Nando Reis: Ô! Eu tinha um royalty ridículo. Variava de acordo com a vendagem, mas no final estava em torno de 16 a 18%, acho. Hoje ganho muito mais. Já vendi 7.000 discos em quatro meses e o último álbum vendeu 12.000 na Universal.

GQ: As gravadoras pararam no tempo?
Nando Reis: Enquanto ficaram preocupadas com a pirataria, subestimaram a internet. Deveriam ter pensado em sistemas de vendas online, em garantir os direitos autorais. Não houve empenho nesse sentido. Elas acharam que o camelô era o inimigo. E agora já dançaram.

GQ: Você tocou baixo por anos no Titãs e hoje prefere o violão. Enjoou?
Nando Reis: Eu sempre toquei violão. Só que eu queria tocar alguma coisa no Titãs, mas não tinha vaga. Fiquei com o baixo. Aí, quando saí da banda, quis uma ruptura. O violão deixa a gente mais isolado do resto da banda, e era o que queria na carreira solo.

GQ: No final, você conclui que o mundo é bão?
Nando Reis: A vida é boa, mas o mundo é uma bosta. A gente tem que construir a própria vida. E a minha não é esse palco iluminado o tempo todo, mas eu amo viver. Nem todo tempo tudo é legal porque a vida não é assim.

GQ: Você já está compondo?
Nando Reis: Agora você tocou em um ponto nevrálgico. Compor é a maior angústia do mundo, nunca sei se vou fazer algo que vai me satisfazer. Tenho duas músicas prontas, mas só.

GQ: E as compôs para alguém?
Nando Reis: Não. Ando, cada vez mais, sozinho.

26th março, 2013

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