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01 Aug 2013 | Sei

Fã Clube Nando Reis

“Gravar um disco é como uma viagem intergaláctica”

“Gravar um disco é como uma viagem intergaláctica”

nandocult2BQuase duas horas antes do evento, o Espaço CULT já estava repleto de pessoas que aguardavam a chegada de Nando Reis. Aos cinquenta anos de idade e trinta de carreira, o cantor e compositor falou sobre seu primeiro disco independente, “Sei”, lançado no primeiro semestre de 2012. O álbum, a carreira e a vida do ex-membro do Titãs nortearam a conversa com o jornalista Marcus Preto. Além disso, acompanhado pela audiência presente, Nando cantou algumas faixas de “Sei”.

Para o cantor e compositor, a produção independente não afeta em nada a parte musical de Sei. “Sempre gravei, desde os Titãs, tudo o que eu quis, da forma como quis. A diferença está na maneira de divulgar e cuidar da colocação do disco no mercado em tempos nos quais as lojas de discos são praticamente inexistentes. Fui para uma direção que não seria viável dentro do processo de produção de uma gravadora”, explica.

A direção tomada foi a de vender o disco em seu site pelo preço que as pessoas estão dispostas a pagar. A precificação varia semanalmente de acordo com a procura do público pelo disco. Com o disco chegando a cerca de 10 mil cópias vendidas, Nando se mostra contente com o resultado. “É muito mais do que o número em si, mas sim o fato de ter gente que se interessa e se dispõe a estar junto comigo dessa nova forma”.

Confira a entrevista cedida por Nando Reis ao site da CULT.

Marcus Preto: Como foi o processo de produção do Sei?

Nando Reis: Gosto de gravar fora de São Paulo, porque para mim gravar um disco é um processo de imersão. É um tempo em que eu gosto de me afastar fisicamente da minha casa e das minhas atividades mais prosaicas e ordinárias, como filhos e telefonemas. É como se fosse uma viagem intergaláctica.

O Jack Endino, produtor com quem eu já trabalhei em discos dos Titãs e no meu segundo disco solo, mora em Seattle. E eu queria ter essa experiência de levar a banda pra lá, gravar no estúdio dele, de me descontextualizar para poder me recontextualizar.

Marcus Preto: Existe alguma mensagem que você quer passar com o disco?

Nando Reis: Não trato a música com esse conceito de mensagem. A forma como as pessoas se relacionam com a música depende ou estabelece uma relação de liberdade, de interpretação.  Não há nenhum código que eu queria fixar na cabeça das pessoas. Simplesmente faço as músicas de acordo com aquilo que sinto, na forma como gosto de escrever, sobre os assuntos que gosto. Depois disso, as pessoas fazem com ela o que bem entender.

Marcus Preto: Quais foram as dificuldades em gravar um disco independente?

Nando Reis: As facilidades que eu tinha de ter uma gravadora cuidando da parte financeira, pagando estúdio e aluguel, foram substituídas por outras. Não acho que seja muito diferente. Gravar um disco é sempre uma coisa doida e prazerosa. O que teve de mais novo foi a venda pela internet.

Estamos chegando a dez mil cópias, que é um número bastante significativo para mim porque são dez mil unidades que estão na casa, ou sei lá onde, de dez mil pessoas que querem realmente comprar. É muito mais do que o número em si, mas o fato de ter gente que se interessa e que se dispõe a estar junto comigo desta nova forma. Estou muito feliz.

Fora que é um barato ver as possibilidades de continuar a vender discos, porque é o que eu faço. Me preocupa o fato de não ter discos sendo vendidos. Eu não me refiro apenas ao disco físico, porque parece uma coisa nostálgica, mas a aquela ideia que a música tem quando colocada em um disco. A ordem das músicas, a capa. É muito mais do que simplesmente baixar a musica de que você gosta.

Marcus Preto: É por esse motivo que você não disponibiliza o download das músicas no seu site?

Nando Reis: Eu acho que as pessoas podem baixar a música e fazer o que elas quiserem, mas que elas deem seus pulos. Defendo a ideia de que o disco é mais interessante. O que eu faço é isso, o que eu tenho para oferecer é isso. Quem quiser simplesmente uma musica, se vira.

Marcus Preto: Qual das quinze faixas é a sua preferida?

Nando Reis: É sempre difícil dizer isso porque eu me sinto traindo as outras. É como se você me perguntasse de qual dos meus cinco filhos eu gosto mais. Mas tem uma faixa que eu amo que é a “Pré-sal”, que abre o disco. Ela é uma faixa longa, de sete minutos, em que o assunto é, aparentemente, hermético e cheio de códigos.

O título foi dado pela minha irmã, e é como se falasse aquilo que é a pré-consciência, são fatos da minha própria infância. E a música tem um tipo de furor que eu acho adequado  para musicas de abertura. Sou louco pelas musicas que abrem os discos. Acho que das musicas de abertura que já fiz, ela é a que mais me agrada.

Marcus Preto: Por que o nome Sei?

Nando Reis: É o nome de uma música que eu adoro, ao mesmo tempo em que tem uma ideia de que é uma afirmação e é muito menos do que isso. É aquele “sei” que você diz quando está conversando com outra pessoa e acaba sendo impactado por uma quantidade de novidades, informação. Eu gosto desse nome.

Marcus Preto: Como você avalia a produção independente brasileira?

Nando Reis: Não é porque eu gravei um disco independente que eu mudei de time. Até porque as gravadoras nunca foram minhas adversárias. Todos os discos que eu fiz com elas são muito importantes. Não é uma disputa. O que eu gosto na independência é a liberdade.

No meu caso, por exemplo, foi a liberdade conquistada de vender o meu disco. Porque eu gravei discos que não estão nem em catálogo, não são fabricados e não estão nem em lojas – na verdade, quase não há lojas para isso. Não posso ficar satisfeito enquanto há uma crise. As indústrias dizem que as pessoas não compram discos e eu pergunto, como vão comprar se os discos não são fabricados?

Fonte: Revista Cult

2nd abril, 2013

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