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01 Aug 2013 | Sei

Fã Clube Nando Reis

Em fase solitária, Nando Reis lança novo disco e nega volta aos Titãs

Em fase solitária, Nando Reis lança novo disco e nega volta aos Titãs

“A vida às vezes é uma merda”, diz Nando Reis a seu filho Sebastião, 17, quando tenta convencê-lo a terminar o ensino médio antes de dedicar 100% da sua energia à música. É o mesmo filho para quem Nando escreveu “O Mundo É Bão, Sebastião”, uma das últimas canções que gravou com os Titãs, em 2001.

As duas mensagens a Tião são separadas por 11 anos, uma “quase morte” seguida de um renascimento profissional que José Fernando Gomes dos Reis, prestes a fazer 50 anos, agora completa.

Disco “Sei” é novo capítulo da autobiografia de Nando Reis

Ele está solo de verdade. Lança “Sei”, disco que escreveu, produziu e que só pode ser comprado diretamente com ele. Alcançou um posto que ocupa sem acompanhante: o de fazedor de hits improváveis, com letras existencialistas, muitas delas sem refrão.

É ele que faz o povo cantar estrofes dignas de um livro de Clarice Lispector, como “Quando o segundo Sol chegar/ Para realinhar as órbitas dos planetas/ Derrubando com assombro exemplar/ O que os astrônomos diriam/ Se tratar de um outro cometa”.

CAUTELA
Nando também está só na casa em que mora, a alguns passos do estádio do Pacaembu. Antes de começar a entrevista com a Serafina, chega pelo correio uma intimação da Justiça. O músico se recolhe para abrir.

Prudência que talvez não tomasse algum tempo atrás. Como toda emancipação, o crescimento dos últimos anos exigiu uma certa malícia, diz na volta, por conta de algumas quebradas de cara.

Em uma entrevista de 2010, ele disse com todas as letras: “Desejo homens e mulheres”. A frase não teve grande efeito na família. “Fiz de tudo e converso com os meus filhos sobre tudo. Mas não posso falar sobre sexualidade com a Zoe, que tem 13 anos.”

Acontece que as aspas pipocaram na imprensa. E foram seus filhos que entraram no fogo cruzado da internet. “Minha filha recebeu ofensa nesses facebooks da vida. Ela tinha dez anos, sabe?” A partir do trauma, decidiu ficar mais recluso. “Eu falei em nome da liberdade de expressão, mas fiz merda.” Agora só fala por meio das letras.

Diz que já deu entrevistas bêbado. Outras, “muito louco”. Agora, é mais cauteloso. As defesas passam por não conceder mais entrevistas de manhã (“pode ser bem pior do que à noite, depende do que se usou”). “Por que minha vida sexual seria mais interessante do que a de qualquer um? Porque eu sou cantor? Já falei tudo sobre drogas e sexo. Não tem mais nada.” Tem o rock’n’roll e os gêneros que fazem parte de sua vida, dos quais ele fala sem filtros, como o Camel que fuma (ele arranca o filtro).

Nando é um dos dez compositores que mais arrecadou direitos autorais no país em 2012. Divide a liderança com Roberto Carlos e sertanejos como Sorocaba e Paula Fernandes. Mas quem o vê nessa lista não imagina como cada canção é um parto. Ele flerta com o fracasso a cada nova música que começa. “Tenho medo de não conseguir e não é sempre que consigo, não. Já fiz discos curtos por falta de repertório mesmo. Não sou uma máquina de escrever.” Tampouco tem uma fila de cantores lhe fazendo encomendas.

O grosso do sustento, diz ele, vem de shows. Terminou neste mês a turnê “Bailão do Ruivão” e começou a do novo disco menos de uma semana depois. O show anterior tinha hits como “Whisky a Go Go”, do Roupa Nova, e a lambada “Chorando se Foi”, do Kaoma, música mais tocada no planeta.

Já o novo é feito em cima de um álbum pessoal ao ponto de ser definido como a história de uma vida. “Não faço show para agradar. Até porque, no palco, acabo mudando as letras, o que percebi que deixa o público bem puto.”

SEM LIMITES
Há dez anos, o processo era o reverso. A vida pós-rock star pesou depois que ele rompeu com os Titãs e passou a subir ao palco desacompanhado. “Eu não tinha um repertório que por si só levantasse todas aquelas pessoas.”

De vez em quando, perguntava-se o que estava fazendo diante dos milhares que conseguia reunir. “E os shows eram muito inconstantes. Ainda são. Posso estar disperso, às vezes muito louco.”

Por coincidência, Nando anda lendo a autobiografia de Neil Young, em que o roqueiro canadense narra como é tentar escrever sem lubrificar a imaginação com cerveja, maconha ou companhia ilícita. “Eu também tenho esse barato.”

Na época de “Sim e Não”, lançado em 2006, ele dizia que tinha composto o álbum todo na sobriedade. Mas está em “constante luta com isso” no momento. “Acho estados de alteração da mente, de droga, parte do processo criativo.” Nando não diz o que nem como usa, mas fala de um período em que parou “com tudo, não cheirava cocaína nem bebia”, no pretérito perfeito. Às vezes, ele diz, é uma pessoa “sem limites”.

MUDANÇAS
Fofocas desse período davam conta de que ele teria se envolvido com um grupo de hare krishnas e lançaria um álbum com fundo religioso. Ao que ele ri. “A identificação que tenho com eles é só estética. Passa completamente pelo [beatle] George Harrison.”

Tanto que, para gravar com o grupo num show que fez em Porto Alegre, em 2006, pagou R$ 12 mil de cachê à trupe colorida, do próprio bolso. “Acho lindo ter fé, mas não é a minha. Sou quietinho no meu canto.”

Nando gosta mesmo do seu canto. Com uma prole de cinco, idades variando de 6 a 26, mora sozinho numa casa tamanho família. “Tenho um lado muito egocêntrico. É difícil de conciliar.” Mas concorda quando é chamado de conciliador por outro motivo.

Reatou recentemente com Vânia, psicóloga e mãe de quatro dos seus filhos. Tinha ficado com ela por 20 anos antes da separação, há quase dez. No meio tempo, teve um filho com uma namorada do Sul e namoros com Marisa Monte. Se dá bem com todas a ponto de juntar as duas mães dos seus filhos para o Natal e de Marisa participar de seu CD.

Ainda assim, o dia a dia é solitário. A rotina consiste em ir todo dia à academia. “Eu gosto, juro que gosto.” Mas não mais à análise. Ele teve duas relações longas com psicanalistas. Terminou a mais recente em janeiro, depois de anos, quando decidiu se dar alta. “Estou num momento de mudança.”

Nada comparado com a mudança da década passada, garante. No começo dos anos 2000, era total a crise. Compunha muito para os Titãs e gravava pouco. Não queria mais ficar tanto tempo na estrada.

Perdeu em 2001 o companheiro de banda Marcelo Fromer e a amiga Cássia Eller. “Eu também estava quase morrendo. Aliás, morrendo é uma palavra boa. Eu estava intoxicando uma coisa em mim para que ela me fizesse fenecer.”

A separação deixou um trauma que respingou no instrumento que tocava nos Titãs. “Se eu tocasse baixo, tocaria de novo nessas velhas feridas.” Desde o divórcio, houve vários convites para se apresentar com a banda. “Nunca tinha dado certo, não sei por quê.”

A reunião deste mês, em show único no Espaço das Américas, acabou saindo por pouco. Depois de ser convidado e declinar, mudou de ideia. Os cartazes já estavam impressos, sem seu nome, quando dirigia ouvindo “Cabeça Dinossauro”, de 1986, e pensou “Que disco da porra!” Ligou para Branco Mello e disse que tinha a noite do show livre na agenda. O reencontro foi “do caralho!” e nada menos. Mas não se repetirá. “Já foi. Não é uma volta. É uma delícia lembrar. Mas não mais do que isso.”

AÇÕES
Os tempos são outros. De novidades. A mesma internet que trouxe o insulto à filha é sua nova aposta profissional. Os 20 mil CDs prensados de “Sei” estão num quartinho dos fundos de sua casa e nunca verão a luz fria de um shopping center. Quem quiser deve entrar no site de Nando e fazer uma oferta pelo álbum.

Sim, porque o cantor virou ele mesmo uma ação: o preço do CD oscila de acordo com a procura, como cotas de empresas. A cada semana, o valor cobrado é a média das ofertas feitas por todos os postulantes a cliente. “Eu não vendia mesmo. Tudo o que gravei ficou no vermelho e as gravadoras queriam avançar no meu cachê, que é sagrado para mim.” Decidiu então ficar sozinho também no negócio de fazer música. “Já tenho idade o suficiente.”

A barba do ruivão está ficando branca. Mas o espectro da calvície, que ronda sua vida desde os 15 anos, não o assusta mais. Tanto. “Achava que eu ia ficar feio careca, perder o charme. Mas hoje já acho que viveria bem. Dá pra viver bem”.

É por isso que ele quer chegar aos 90 anos de vida, que às vezes pode ser uma merda ou levada num mundo bom, como ensinou ao filho. “Só quero ficar bem.”

Fonte: Folha de S.Paulo

 

28th outubro, 2012

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